“Queres que eu diminua a tua dor?”

13:36:00

Foi dessa forma que fui “acordado” e me dei conta da existência literal de Anjos. Seres que até então tinha como certos – mas invisíveis -, me fizeram perceber naquele momento que estavam do meu lado e percebiam tudo ao redor.

Passei então a lembrar-me dos pequenos gestos, os pedidos, os olhares e percebi que aquela última pergunta deixava de ser um sussurro e transformava-se em um grito com a potência de um trovão que surge anunciando uma tempestade que ainda não chegou.

Meu sono era subitamente interrompido por pedidos de proximidade, que prontamente atendidos, faziam parte de um contexto que servia mais para me restabelecer do que para atender uma necessidade de seres perfeitos em si.

Anjos não tem idade, cor, sexo e nem podem ser tocados ou vistos. Esses eram atributos em que eu acreditava até ontem devido a minha fé cética e tão eficaz como uma peneira usada para reter a água limpa e cristalina. Precisei então de um grito sussurrado ao ouvido para que eu pudesse perceber que as puxadas nas barras de minha calça não estavam mais surtindo efeito – era preciso fazer algo.

Nunca duvidei das intervenções que me protegeram durante toda a minha vida, mas confesso que nunca percebi de forma tão clara um oferecimento de ajuda tão explícito. Meus erros não foram levados em consideração, tampouco minha falta de atenção.

Cada sorriso, pedido, olhar, provocação. Foram tantos e eu tão cego!

“Não. Preciso chegar mais perto para encarar minhas consequências e amadurecer.” Esta seria a resposta apropriada, mas certamente deixei escapulir entre meus dedos outra. Minhas mãos então receberam um aperto firme e atravessei cada uma das etapas certo de que não estava só, e isso deixou tudo muito mais fácil.

A cada etapa vencida, percebia o olhar daquele Anjo que dizia “Você está indo bem. Estou aqui contigo”. Ambos sabíamos que era o momento da separação, e o olhar dele traduzia algo que já tinha visto várias outras vezes, mas ontem foi diferente. Não trazia em si a tristeza pela companhia que seria interrompida fisicamente, mas sim, a preocupação com o meu momento seguinte.

Poucas vezes consegui entender as entrelinhas de algo tão sutil e percebo agora que algo de fato está mudando. Preciso mesmo cuidar para que nos encontremos novamente e nossos passos continuem firmes e com um propósito sólido. Sei que ele não quer só contar comigo, mas que eu também conte com ele!

Entre o sussurro de minha essência que gritou após cumprir a última etapa daquele momento e a necessidade de entender, sigo com os reflexos da vontade daquele Anjo para minha vida. Consigo perceber que não existe a acusação, mas tão somente a vontade de conhecer o meu sorriso, o resgate de um ‘eu’ que ele tenta encontrar com um olhar furtivo sobre meus atos.

“Quero que me acompanhe, segure na minha mão e me deixe aprender contigo”. Essa foi a resposta que eu deveria ter dado à sua pergunta, mas ela ficou presa na garganta dos meus medos. Sei, contudo, que ele aprovou minha atitude – como sempre o fez. Por isso, sinto-me mais impulsionado a continuar tendo a certeza de que estou no caminho certo.

Com ele, tudo fica muito mais fácil.

Alexandre Barreto

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