Ponto [Um Conto]

01:35:00

Tinha tudo para ser um belo anoitecer de domingo - A temperatura estava amena, o sol tinha acabado de se pôr, a proximidade com o mar trazia a maresia em forma de essência. Contudo, era uma segunda-feira daquelas. E não bastasse a correria para chegar logo ao destino, sobravam obstáculos móveis pelo caminho: pessoas com pressa em todas as direções.

Ele, sentado no banco do trem carregava nas mãos os inseparáveis lápis e bloco com folhas pautadas, que em alguns momentos eram usados para desenhar, e em outros serviam para anotações do que era percebido ao seu redor.

Ela então chegou sobressaltada, olhou para os lados, percebeu um lugar e sentou-se ao lado dele. Nas mãos além da bolsa e do telefone celular, trazia uma corda que terminava no pescoço de um animal. Era um cachorro, mas não parecia.

- Com licença, disse ela sem olhar para seu vizinho no banco. – Não que evitasse o contato visual, mas tão somente porque era míope e já estava acostumada a manter sua visão periférica, fugindo vez por outra de detalhes pontuais. Continuou:
- Se importa? – Perguntou apontando para o cão que, a esta altura, estava protegido embaixo de suas longilíneas pernas que mal cabiam no espaço entre os bancos.

Ele sem ater-se ao detalhe que proibia a entrada de cães no trem, limitou-se a responder:

- Esteja à vontade. Qual o nome dele?
- Kelvin. – respondeu ela. Mas o chamo de Caveirinha – acrescentou.

Um olhar mais atento fez com que ele entendesse a razão do apelido: era um cachorro magro, aparentemente velho e não bastassem esses detalhes, seu medo da multidão aumentava sua cegueira. Mantinha-se encolhido entre as pernas que pareciam viadutos intermináveis.

Naquele instante o trem, que estava em movimento, parou de repente. O condutor avisou que seriam necessários alguns minutos para que a viagem prosseguisse.

Eles então se entreolharam como se quisessem justificar entre si a parada. Mas, sem entenderem baixaram os olhos no mesmo instante.

- Qual seu nome? – Ele perguntou.
- Chris. Com H.
- Está indo para casa?
- Na verdade, não. Kelvin prendeu o focinho na porta do elevador e estou levando-o para o veterinário.

Só então ele percebeu mais um detalhe sórdido: o cão trazia um pedaço de pano branco envolvido em seu focinho. Imaginou as portas do elevador fechando no focinho do animal e, instintivamente, levou a mão até seu próprio nariz como se tivesse sentido a dor.

- Deve ter lesionado bem! – percebendo o cão que com um esforço notadamente doloroso, levantou a cabeça parecendo entender.

Ela acenou com a cabeça sinalizando concordar. Sabia que o ocorrido não tinha sido sua culpa, diferentemente do episódio que fez surgir a primeira tartaruga cor de rosa tratada pelo mesmo veterinário de Caveirinha.

Um belo dia, ainda menina, pintava seu quarto de rosa na ausência de seus pais. Não percebia as poças de tinta que insistiam em colorir o chão e achava lindo cada pedacinho da parede que sua pequena estatura – sim, ela foi pequena um dia! – conseguia alcançar. Ao terminar, deu uma bela olhada e ficou orgulhosa de sua obra de arte. Quando estava prestes a sair do quarto, deparou-se com a catástrofe: a tartaruga de estimação estava completamente rosa! Não conseguia entender como aquilo poderia ter acontecido. Achou a cor da tartaruga contemporânea e teve sentimentos antagônicos vislumbrando a repreensão dos pais. Numa atitude brilhante resolveu repousar as costas da tartaruga no solo do quarto, confiando que a tinta escorreria e o réptil retomasse seu padrão monocromático. Tudo em vão...

- Desde esse dia, coloquei o nome dela de Brucevita – afirmou com um sorriso de menina estampado no meio daquele rosto de mulher.
- Por que Brucevita?
- Ora, não lhe parece óbvio? – Ela estava de bruços e suas patinhas mexiam-se sem parar; era vida pura! Bruços; Vida. Brucevita, entendeu?
- Ah... respondeu ele tentando não mostrar perplexidade com tamanha criatividade.

O trem ainda estava parado, mas Chris parecia ter ficado à vontade para continuar a conversa.

- Sou fonoaudióloga. O que você faz?
- Sou desenhista, mas nas horas vagas gosto de escrever – retrucou ele.
- Você ainda não me disse seu nome...

Ele então, com os olhos de quem demonstra preocupação, parou por um instante e deixou de olhar para Chris. Demonstrava nitidamente que não sabia o que fazer. Ela percebendo o desvio, fez sinal com a face demonstrando que estava tudo bem; ele não precisava dizer seu nome.

- Brucevito. Muito prazer.

Chris voltou seus olhos para ele e, como se não estivesse acreditando esboçou dizer algo, no que foi interrompida:

- Tenho o mesmo nome de sua tartaruga, mas por razões diferentes. Bruce vem do Hebraico, O Abençoado; Vito originário do Latim, Vitória Certa. Como percebe, mesmo nome e inspirações diferentes – disse isso ensaiando um sorriso amarelo e discreto enquanto voltava seu olhar para seus desenhos.

Ela então, sem saber o que dizer, ficou quieta por alguns instantes, mas não o tempo suficiente para emudecer. Irrompeu dizendo:

- Eu queria ser paranormal, mas minha fé contrasta com esse tipo de crença. Mas confesso que me deparo com coisas que poucas pessoas acreditariam.

Com um discreto movimento de olhar, fez com que Brucevito tivesse a atenção voltada para o pé direito de um dos passageiros que estava próximo. Qual não foi o espanto ao constatar: o homem possuía seis dedos no pé direito. Brucevito então congelou seu olhar em Chris que parecia achar aquilo normal, voltou para suas anotações e começou a rabiscar a folha compulsivamente desejando estar perto de Chris, mas longe do homem com o pé de seis dedos. Sentiu-se enjoado.

- Esses tipos de fenômenos anômalos insistem em esbarrar comigo. Queria tanto ser normal! Trabalhar com operações de turismo receptivo... Mas não consigo... – desabafou.

Um forte tranco então interrompeu Chris. O trem retomava o movimento e, por alguns instantes, a vida parecia sair da tecla pausa no entendimento de Brucevito.

De forma furtiva, ele olhava para Chris através do reflexo na janela do metrô. Percebia em seus olhos cuidadosamente desenhados no topo do rosto, a fascinação pela lua, um olhar de menina com a experiência de uma mulher rascunhados por uma vida intensa. Certamente ela havia nascido nas proximidades do natal, pensou ele. A vivacidade com que se matinha sentada, dava a impressão de que flutuava.

Brucevito virou a página, começou a desenhar rapidamente e, antes que Chris se levantasse para saltar, lhe entregou a folha com um desenho e lhe disse:

- Continue depois. Sei que vai ficar lindo! – disse em meio a um sorriso sincero.

Chris, sem saber o que dizer colocou o papel no bolso, levantou cuidadosamente Kelvin e desceu em sua estação. Ela sabia que não importava o que havia sido desenhado naquela folha:

Continuaria daquele ponto em diante e conseguiria realizar a mais linda obra prima que sua sensibilidade tivera realizado antes.

Alexandre Barreto

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