Dar... Doar-se e Amar

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Dar é a mais alta expressão do sustento. No próprio ato de dar, ponho à prova minha força, minha riqueza, meu poder. Essa experiência de elevada vitalidade e potência me enche de alegria.

Dar é mais alegre do que receber, não por ser uma privação, mas porque, no ato de dar, encontra-se a expressão da minha espiritualidade.

No fenômeno específico do sexo, a função sexual reside no ato de dar; entregar-se em um ato sexual é se doar de corpo e alma. O homem se entrega ao dar o seu sêmen. Na mulher, o processo não é diverso, embora seja algo mais complexo. Ela também se dá; abre as portas de seu centro feminino; dá, no ato de receber. Se for incapaz desse ato de dar, se só puder receber, é frígida. Nela, o ato de dar volta a ocorrer não na função de amante, mas na de mãe. Dá de si ao filho que cresce dentro dela, dá seu leite à criança, dá-lhe o calor de seu corpo. Não dar seria doloroso para ela.

Na esfera das coisas materiais, dar significa ser rico. Não é rico quem muito tem, mas quem muito dá. O apegado que ansiosamente receia perder alguma coisa é, psicologicamente falando, um ser humano pobre, um desafortunado, não importa quanto possua. Quem é capaz de dar de si, é rico.

É de conhecimento de todos que os pobres são mais inclinados a dar do que os ricos. Não obstante, a pobreza além de certo ponto pode tornar impossível dar e, assim, é degradante, não só pelo sofrimento que causa diretamente, mas pelo fato de privar o pobre da alegria de dar. Mas há mais pobres procurando a alegria de dar do que os ricos.

O aspecto mais importante no ato de dar, entretanto, não é o das coisas materiais, mas do reino especificamente humano. Que dá uma pessoa à outra? Dá de si mesma, do que tem de mais valioso, dá de sua vida. Isto não quer, necessariamente, dizer que sacrifique sua vida por outrem, mas que lhe dê daquilo que em si tem de vivo; dê-lhe de sua alegria, de seu interesse, de sua compreensão, de seu conhecimento, de seu humor, de sua tristeza, de todas as expressões e manifestações daquilo que vive em si.

Dando assim de sua vida, enriquece a outra pessoa, enaltece seus sentimentos mais nobres, não dá a fim de receber. Dar é, em si mesmo, uma requintada alegria de viver. Mas, ao dar, não pode deixar de levar alguma coisa à existência da outra pessoa – também um doador – e ambos compartilham da alegria de haver trazido algo de muito precioso à vida.

Especificamente falando de amor, isso significa que o amor é uma força que produz amor; impotência é a incapacidade de produzir amor. O indivíduo como ser humano é sua relação com o mundo, com o tudo em relação ao todo, que move nossa existência... e só podemos trocar amor por amor, confiança por confiança e, assim, sucessivamente.

Enfim, se quisermos participar da alquimia da vida, devemos ser pessoas de preparos mágicos e entre estes estão os de "Dar... Doar-se e AMAR" a cada instante da vida e a tudo que estamos fazendo no momento presente.

Então, todas as relações do ser humano com a natureza devem ser uma expressão definida de sua vida real, individual, correspondente ao objeto de sua vontade. Se alguém ama sem atrair amor, isto é, se seu amor não produz amor, se através de sua expressão, você não consegue acenar ao amor é porque você, como pessoa amante, não faz da sua própria pessoa sua amada. Quando você se amar de verdade, vai poder experimentar a verdadeira alegria no ato de dar.

Mas não é só na abordagem do amor que dar significa receber. O professor é ensinado pelos seus alunos, o ator é estimulado por sua audiência, o psicanalista é curado por seu cliente; contanto que não se tratem uns aos outros como objetos, mas se relacionem uns com os outros na simplicidade e produtivamente.

Com isso, quase não é necessário acentuar o fato de que a capacidade "dar" depende do desenvolvimento do caráter de cada um. Nesse prisma, a pessoa superou a dependência, o desejo de explorar os outros, ou de poupar e adquiriu fé em seus próprios poderes interiores, coragem de confiar em suas forças para atingir seus objetivos. No mesmo grau em que faltarem essas qualidades é ela temerosa de dar-se e, por tanto, de se amar.

Cuidado e preocupação lembram outro aspecto do amor: o da responsabilidade. Responsabilidade não é como dever, algo imposto de fora a alguém. Em seu verdadeiro sentido, é um ato voluntário; é a resposta que damos às necessidades – expressas ou não expressas – de um para o outro. Ser responsável significa ter de "responder", estar pronto a doar-se.

O amor entre duas pessoas refere-se, principalmente, às necessidades alinhadas entre si. A responsabilidade poderia facilmente corromper-se em dominação e posse se não houvesse um terceiro elemento do amor: o respeito.

Respeito não é medo; é termos a capacidade de ver uma pessoa tal como é, ter conhecimento de sua individualidade. Respeito significa a preocupação de que a outra pessoa cresça e se desenvolva como é. Respeito, assim, significa ausência de exploração. Quero que a pessoa amada cresça e se desenvolva por si mesma. Se amo a outra pessoa, sinto-me um com ela, mas com ela tal como é, não como eu necessito que seja pra objeto de meu uso. É claro que o respeito só é possível se eu mesmo alcançar a independência e caminhar de mãos dadas com o próximo sem ter que me deixar dominar e nem às outras pessoas.

O amor é filho da liberdade, nunca da dominação. Deus criou o livre arbítrio e nós criamos as fatalidades.

Bernardino Nilton Nascimento

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