Resgatando o Amor e a Ética nas Relações

14:55:00

Os relacionamentos humanos estão em crise. Crise porque está acontecendo uma grande transformação na forma de se desempenhar os papéis sociais, sejam papéis como pais, sejam como homem e mulher e todos os outros. Crise porque nesta transformação de papéis não se sabe claramente o que pode ou não pode, o que é certo ou o que é errado fazer ou exigir numa relação. Mas, a pior de todas as crises é a crise moral e ética em que vivemos.

A coisa está tão séria que vemos explodir as denúncias de corrupção na política, a impunidade descabida correndo solta, vemos a violência desenfreada na sociedade humana a ponto dessa violência se infiltrar nos lares, perdendo-se todos os parâmetros. E em todas as situações sobra para nós, pobres mortais, somente a impotência!

Está certo que as informações estão chegando mais rapidamente para nós, mas o que eu vejo são as crises dos papéis sociais gerando a crise moral e ética na sociedade - que já estava frágil -, trazendo assim, cada vez mais e em maior proporção, a violência para dentro dos lares e em todos os ambientes habitados pelos humanos.

As relações humanas têm como pacto principal o Amor. Seja este Amor filial, fraternal, parental ou carnal. É o amor que aproxima as pessoas. A aceitação e a admiração são expressões deste Amor. Quando nos sentimos aceitos e admirados por alguém, nos sentimos amados e quando ainda por cima isso é recíproco, mais do que nunca queremos manter esta relação.

O grande problema é que só amor - o que já não é pouco numa relação - não basta, porque em nome deste amor que é dado, muitas vezes são exigidas coisas que não são do direito e nem legitimadas pelo Amor. Percebemos as invasões dos espaços do outro em nome do Amor, sentimos o desrespeito em nome deste Amor. Portanto, além de Amor, uma relação não sobrevive sem o Respeito. É fundamental respeitar a individualidade do outro, bem como nos respeitar; respeitar nossa individualidade na relação com o outro.

Outro ingrediente imprescindível em qualquer relação é a Confiança. Sem confiança não investimos; nos envolvemos e não nos entregamos em nada. Sem confiança a relação fica estabelecida na superficialidade, sem nunca saber, realmente, com quem estamos e quem está conosco não sabe, de verdade, quem somos.

Mas, para que haja respeito e confiança numa relação é absolutamente fundamental que haja Educação. E o que é Educação?

Eu chamo de ter Educação quando a pessoa tem um mínimo de consciência de seus limites – direitos e deveres - enquanto indivíduo, em toda e qualquer situação de vida – ou seja, noções básicas de ética!

Hoje é justamente pela deficiência de parâmetros claros e definidos de tais limites, que as pessoas estão muito mais autocentradas em suas próprias necessidades. Não estão conseguindo pensar no outro, nas necessidades do outro e, consequentemente, não confiam que o outro genuinamente possa fazê-lo também.

Estão todos vivendo pelo “princípio do prazer”, como diria Freud; porque lidar com a realidade realmente não é fácil.

As pessoas querem ter tudo, mas não querem dar nada. Pararam na fase dos três anos de idade: querem viver e experimentar tudo o que a vida se lhes apresenta, mas não querem assumir nenhum compromisso e responsabilidade sobre isso, como qualquer adulto saudável faria. Isto é princípio do prazer. Viver o bem bom da vida sem qualquer comprometimento de sua parte.

Está faltando – coletivamente – maturidade para viver a vida realisticamente. Falta o desenvolvimento de valores morais e éticos na relação com a vida e, consequentemente, na relação com as pessoas.

A vida e as relações humanas são feitas de direitos e deveres, mas se não existe um certo grau de desenvolvimento de valores éticos e morais – que eu chamo de educação porque é na educação recebida que se formam tais valores – acaba por se estabelecer contatos e relacionamentos pautados apenas nos “meus direitos” e totalmente inconsciente dos “meus deveres” – como qualquer criança de três anos de idade!

Por isto é importante desenvolver a consciência de onde termina você e onde começa o outro.

Mas quais são a suas necessidades e quais são as necessidades do outro dentro das relações?

Ter “noção” de ética e moral é o princípio sine qua non para se estabelecer qualquer relação.

Eu entendo Ética como conduta de vida, onde sempre precisa estar presente um pensamento básico:

“Tudo que me faz mal, que me incomoda, que me deixa infeliz provavelmente poderá também afetar o outro e fazer-lhe mal, incomodá-lo e deixa-lo infeliz”.

Um exemplo claro é: se eu tenho um relacionamento fixo com alguém e se me sinto atraído por outro alguém - o que é absolutamente natural que aconteça -, como devo proceder? Devo exercer minha atração e me envolver em paralelo com esta outra pessoa?

Caso eu o faça, dentro dos parâmetros éticos – baseado no pacto de confiança e respeito dentro da relação que lhe seria próprio – estaria traindo a confiança do parceiro fixo.

O problema é que a maioria das pessoas não faz este tipo de exercício ético: se colocar no lugar do outro.

E é isto que eu chamo de conduta ética: saber que o que me atinge como indivíduo e ser humano poderá atingir também o outro, como indivíduo e ser humano.

Independentemente do que a convenção social determina como modelo de atuação para os papéis que representamos - não podemos nos esquecer que a sociedade é formada por cada um de nós, portanto, nós é que verdadeiramente determinamos os modelos dos papéis sociais a desempenhar -, jamais devemos nos esquecer de que a base para a relação indivíduo/indivíduo é a ética e a moral, que tem como princípio básico o respeito e a confiança. Caso contrário, o que teremos é uma banalização da vida e, consequentemente, das relações que se tornam cada vez mais descartáveis. Todos se tornam descartáveis porque falta amor e respeito pela vida, bem como falta confiança do que a vida proverá.

É importante que cada um de nós faça a sua parte para sair da impotência na qual socialmente entramos com a crise que se instalou: resgatar finalmente o Amor e a Ética, em princípio na nossa própria vida e depois aplicar este “resgate” em todas as nossas relações.

Precisamos entender que, realmente, depende única e exclusivamente de cada indivíduo expressar Amor e Ética na própria vida, nas relações pessoais e na sociedade humana de modo geral.

Maria Aparecida Bressani

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