Órbita
Passava um pouco das sete e meia da tarde e a luz mudou de qualidade antes de mudar de quantidade. Não escureceu, ganhou tons de cinza em meio a um azul-perfeito. A ausência de calor era normal porque sol já estava a meia altura sobre o mar, quase deitado, e o disco tinha uma mordida discreta que crescia devagar. Uma brisa aumentava sua velocidade, a temperatura caiu um pouco mais e as gaivotas se calaram por alguns instantes. Parecia que o tempo se movia em câmera lenta, quase uma pausa. Durou pouco e foi previsto há décadas com a incrível precisão de segundos. Desde então esse pensamento tem alugado minha mente, não o eclipse, mas a previsão dele. Alguém que morreu anos atrás escreveu num papel a hora exata em que a lua ia passar na frente do sol hoje e acertou. Não deu um chute, não torceu, não pediu. Calculou cuidadosamente. O universo, que é grande de um jeito que a nossa cabeça não processa, apenas aceitou e se comportou exatamente como o papel dizia que ele se comportaria. Um si...