Beleza Com Prazo de Validade
Já morei em muitas cidades, trabalhei em dezenas de outras e não me lembro de uma que não me tenha impressionado na chegada. Sempre havia algo: a proporção de uma praça, a cor das pedras, o jeito como a luz batia numa rua que eu nunca tinha andado. Chegava como turista do próprio destino, admirando detalhes que os moradores já não percebiam. Mas essa impressão tinha prazo. Com o tempo, o que eu queria de uma cidade não era mais a arquitetura, mas poder andar à noite sem calcular riscos. Era saber que o vizinho não me traria problemas. Era acordar sem a sensação de que algo poderia dar errado antes do almoço. A beleza que me atraiu foi cedendo lugar ao que de fato importava: a segurança de estar onde estava. Com pessoas, o mecanismo é o mesmo e insistimos em ignorar isso. Existe uma fase inicial em qualquer relação em que a percepção está distorcida pela novidade. Notamos o que é visível, o que brilha, o que nos move por dentro. Isso não é fraqueza mas o funcionamento normal de quem ...