Agenda
Hoje achei uma agenda velha escrita numa folha de caderno amarelada, numa pasta que ainda não tinha desfeito. Números escritos com canetas diferentes, caligrafia distinta, alguns com dígitos a menos, do tempo em que falar com alguém exigia carregar o papel no bolso. Não sei por que guardei aquilo por tantos anos. Provavelmente pela mesma razão que a gente guarda carregador de celular que já não existe. Passei um tempo relendo nomes e números. Não foi saudade, foi outra coisa, mais incômoda, que ainda estou tentando descrever. Havia nomes que eu não consegui associar a rosto nenhum. Outros, rostos que voltaram inteiros, com voz, cheiro, gosto, barulho da televisão ligada na sala enquanto a conversa acontecia na cozinha. E havia gente com quem jurei, naquele tom solene que só existe antes dos vinte anos, que a distância não faria diferença nenhuma. Fez diferença. Depois vêm os nomes que a rotina me forçou a escrever. Pessoas com quem dividi mais horas por dia do que com qualquer parente....