Chão
Pedro parecia ter entre oito ou nove anos e subiu num palco de stand up porque o comediante costumava chamar crianças para mostrarem algum talento, habilidade, brincadeira que os adultos acompanham com condescendência e que as crianças, invariavelmente, levam a sério. Quando se apresentou, revelou que seu talento era dar um salto mortal. O comediante, por prudência ou por hábito de quem já viu confusão em casa de espetáculo, perguntou aos pais, sentados na plateia, se aquilo estava autorizado, e os pais autorizaram. O menino nem tomou distância, apenas tentou um giro no ar de qualquer maneira e caiu quase de costas, com a cabeça batendo no chão de madeira do palco, enquanto o plateia inteira silenciou e prendeu a respiração, naquele vácuo que antecede o alívio ou a tragédia. No show, veio o alívio. Foi só o susto. Mas nas redes, veio o que sempre vem, ou seja, a divisão das culpas e julgamentos, feita com aquela velocidade que só existe quando ninguém tem nada a perder. Os pais foram...