Fronteira
No aeroporto há duas filas: Uma diz residentes e a segunda diz outros. Depois de alguns anos fora, você para diante das duas e hesita, não porque não saiba qual documento carrega, mas porque nenhuma das duas parece inteiramente sua. Isso não é uma fragilidade de quem sente saudade, mas a constatação. Quem sai do lugar onde nasceu para construir vida em outro território descobre uma coisa que ninguém avisa antes: o problema não é aprender a língua ou se adaptar à nova cultura, mas que a antiga identidade, construída sobre solo, terra, sotaque, começa a esfarelar sem aviso. Você volta pra sua terra e as ruas continuam lá, mas você não. Você fica fora, em qualquer fronteira que escolheu, e por mais que a vida esteja sendo erguida ali, uma parte sua continua de pé na porta, como quem não desfez as malas. O erro é achar que isso se resolve encontrando o lugar certo. Não se resolve. O apóstolo Paulo escreve aos hebreus que os que viveram pela fé confessavam ser estrangeiros e peregrinos sobr...