Foz
Acordei às seis novamente sem que nada me despertasse. A janela aberta permitia a entrada silenciosa da maresia que sobe o rio Lima na enchente, e o único ruído vinha de uma brisa suave. Orei, fiz o café, fui até a sacada e fiquei ali um tempo segurando a caneca numa das mãos enquanto a outra tentava inutilmente parar o tempo naquele exato instante de céu azul irrepreensível. Levei alguns meses para que esse silêncio, essa ausência de barulhos e ruídos, me desse um sutil toque no ombro e sussurrasse: é real. Durante boa parte da minha vida, silêncio foi preparação, era o intervalo antes de algo acontecer, o espaço em que se checava o que ainda não tinha dado errado. Um homem que escolheu ser Policial não descansa: ele aguarda. E aguardar tem cara de calma para quem olha de fora, mas por dentro é outra coisa. É o corpo em prontidão, esperando a chegada do barulho posterior a toda aquela aparente paz. Eu pedi isto. Pedi durante anos, em oração e em pensamento, sem grande fé de que f...