A Vida Por Um Fio
Um slogan circulou bastante nas redes sociais recentemente e pertencia a uma empresa de saltos radicais em Limeira, interior de São Paulo: Você sonha. A gente realiza. Maria Eduarda confiou nisso, subiu na ponte, permitiu ser lançada, mas a corda não estava lá.
Ela não sobreviveu para aprender que tinha sido ingênua.
A imagem que me veio à cabeça não foi a da ponte. Foi outra: três homens erguendo um indefeso e manso cordeiro acima da cabeça, no alto de um precipício. A frase do que pratico há décadas faria a diferença: Desconfie, questione e observe. A ingenuidade cobra um preço que, às vezes, é alto demais. Tristemente, essa frase virou obituário.
Existe uma pressão cultural crescente para que a desconfiança seja tratada como defeito de caráter. Quem pergunta demais é desconfiado, quem exige comprovação é difícil, quem não embarca no entusiasmo coletivo é amargo. O mundo, os relacionamentos e sobretudo o mercado descobriram que a confiança cega é vantajosa e construíram em torno dela toda uma linguagem de empoderamento, de salto, de superação: Você sonha. A gente realiza. Ninguém pergunta mais: realiza como?
Maria Eduarda confiou o sonho dela a desconhecidos sem duvidar. Confiou seu sonho de voar nas mãos de quem ela não conhecia e cujas motivações nunca soube de verdade. O objeto da sua confiança foi uma empresa com 80 mil seguidores no Instagram e um slogan. Ela não foi imprudente por querer saltar. Ela saltou sem verificar quem segurava a corda.
Confiar é humano, observar é natural e verificar é sobrevivência.
Há situações em que a desconfiança não é um traço de personalidade difícil, mas o único instrumento racional disponível. Quando o que está em jogo é irreversível, a pergunta incômoda não é excesso, é o mínimo razoável. A corda está presa? Três segundos, uma pergunta e uma vida que segue.
O que aconteceu naquela ponte acontece todo dia, em escala menor e sem manchete. As pessoas confiam em outras sem pesquisar, sem duvidar, acreditando em desconhecidos com a mesma velocidade com que Maria Eduarda subiu naquela ponte. E o resultado pode ser o mesmo: alguém que você escolheu para segurar a corda te joga no abismo. Porque hoje são poucas as pessoas que te erguem e muitas que te derrubam.
Desconfie, observe, questione. Não porque o mundo seja mau, mas porque a ingenuidade, quando o preço chega, não aceita parcelamento.
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