O Barco e o Leme
Existe uma diferença entre o que você quer e o que precisa. Não é difícil entender. É difícil encarar.
Lembro-me como se fosse hoje. Compartilhei a localização da minha casa e o comentário foi imediato: Você mora no meio de uma mata?! Não era metáfora ou uma forma de dizer que estávamos distantes; era literal a surpresa. E literal também era minha escolha pelo lugar onde mais me encontrei comigo mesmo. Havia um silêncio que não era ausência de barulho, mas presença de algo mais denso, e uma distância calculada entre mim e o movimento perpétuo das pessoas que precisam de plateia para existirem.
Não precisei dizer mais de uma vez. O diagnóstico chegou antes de eu terminar a frase: Isolamento. Como se morar longe fosse sintoma, o tumulto fosse saúde e o campo fosse fuga. As pessoas sabem ler mapas, mas a grande maioria não entende nada sobre bússolas.
Tem uma distinção que ninguém faz quando julga a escolha do outro: a diferença entre quem se afasta de algo e quem caminha em direção a algo. O resultado físico é idêntico: a pessoa some do radar. O que ninguém pergunta é para onde ela foi.
Passei décadas num ritmo que não era meu. Não estou reclamando, foi o que escolhi, e aprendi coisas que só se aprendem no atrito e no mundo sem filtro. Mas houve um ponto em que o ritmo virou maré, e eu virei o barco. E quando você é levado por tempo suficiente, começa a esquecer que tem seu próprio leme.
Epicteto foi um escravo que entendeu de liberdade melhor do que os homens livres ao seu redor. Porque para ele, o ponto nunca foi a situação, mas a distinção entre o que é som e o que é ruído. Um dia me fiz uma pergunta que não tinha resposta confortável: Consigo me tornar quem preciso ser sem criar as condições para isso? A resposta honesta foi não.
Os poucos que me conhecem bem, sabem que meu silêncio não é um vazio de ideias, planos, sonhos... é escolha de vida. Sempre foi. Mesmo em meio às turbulências, nunca me expus completamente. Não por egoísmo ou falta de confiança, mas porque aprendi que o barulho dos outros nunca foi bússola para ninguém.
E foi exatamente esse silêncio que me permitiu encontrar a pergunta certa. Não é sobre o que você quer, essa qualquer um responde quando está confortável. É sobre o que você está disposto a dispensar para ter o que precisa.
E essa, a maioria nunca faz.
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