Prefiro Varanda


A vida é para profissionais. Estranho dizer isso, mas é o que me parece. Como num jogo de xadrez que ninguém nos ensinou a jogar, a maioria de nós senta diante do tabuleiro e vai empurrando peças com a confiança de quem leu as regras uma vez, há muito tempo, num manual que alguém perdeu. E já vou logo admitindo: sou amador nessa tarefa de viver. Nunca fui campeão de nada. Mas aprendi com o tempo que amadores têm uma vantagem que os profissionais raramente percebem: eles jogam por prazer.

Sou amador porque aprendi a sorrir nas perdas. E não é o sorriso amarelo de quem finge que está tudo bem. É o sorriso de quem entendeu que perder faz parte do cardápio e que às vezes o prato que volta é melhor do que o que foi. Aprendi a abrir mão do que precisa da minha insistência, como se soltar de um espinho que estava me impedindo de atravessar a cerca. Aprendi a ficar um tempinho mais no chão depois de um tombo. Não por fraqueza, mas porque o chão também ensina, e a pressa de se levantar às vezes faz a gente cair no mesmo buraco.

Um profissional nunca perde. Custe o que custar, ele ganha. Muda as regras, negocia o resultado, redefine o que é vitória. É quase como um jogador de botão que sopra a peça com tanta força que ela vai parar onde ele quer e chama isso de habilidade. Respeito. Mas não é o meu jogo.

Sou amador porque decidi que já tenho tudo que preciso. Não foi uma decisão fácil. Foi mais parecida com arrumar a mala para uma viagem longa e perceber que a maioria das coisas que eu estava colocando dentro eu nunca iria usar. Cansei de colecionar objetos que acumulam poeira e pessoas que acumulam espaço. Cansei de esperar que a vida me entregasse o que eu imaginei que ela deveria me dar. Aprendi que a expectativa é uma conta que a gente cria e que o universo não assinou o contrato. Pagar essa fatura é sempre mais caro do que parece.

Continuo amador porque perco mais tempo me descobrindo do que agradando aos outros. Cada vez que fico quieto por tempo suficiente, acho alguma coisa que não sabia que estava lá. Como remexer uma gaveta antiga e encontrar uma selfie que você tinha esquecido que tirou, mas que explica muita coisa. E porque posso me divertir de verdade num bate-papo com um pescador simples e honesto, que me conta sobre marés e paciência, sem saber que está me dando a melhor aula do dia. 

Profissional prefere palco. Eu prefiro varanda.


Alexandre Barreto

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