Beleza Com Prazo de Validade


Já morei em muitas cidades, trabalhei em dezenas de outras e não me lembro de uma que não me tenha impressionado na chegada. Sempre havia algo: a proporção de uma praça, a cor das pedras, o jeito como a luz batia numa rua que eu nunca tinha andado. Chegava como turista do próprio destino, admirando detalhes que os moradores já não percebiam.

Mas essa impressão tinha prazo. Com o tempo, o que eu queria de uma cidade não era mais a arquitetura, mas poder andar à noite sem calcular riscos. Era saber que o vizinho não me traria problemas. Era acordar sem a sensação de que algo poderia dar errado antes do almoço. A beleza que me atraiu foi cedendo lugar ao que de fato importava: a segurança de estar onde estava.

Com pessoas, o mecanismo é o mesmo e insistimos em ignorar isso.

Existe uma fase inicial em qualquer relação em que a percepção está distorcida pela novidade. Notamos o que é visível, o que brilha, o que nos move por dentro. Isso não é fraqueza mas o funcionamento normal de quem ainda não tem informação suficiente. O problema começa quando alguém decide que essa fase é o relacionamento, e não apenas a entrada dele.

O que sustenta uma relação não é o que você enxerga como agradável aos olhos, mas o que está lá quando você para de procurar. É a calma de não precisar verificar. É a ausência da dúvida como estado permanente, não porque você escolheu não duvidar, mas porque não há razão para isso. Como Epicteto formulou há dois mil anos: Não devemos esperar que as coisas aconteçam como queremos, mas desejá-las como elas são. Aplicado a quem se escolhe para a vida: não é sobre encontrar alguém perfeito para o nosso desejo, mas sobre reconhecer alguém real que merece a nossa confiança.

Provérbios diz que o coração do marido confia nela, ela lhe faz bem e não mal, todos os dias da sua vida e usa isso como caracterização, não como aspiração. É um estado de coisas, não uma meta afetiva. Confiança não é o que você decide sentir, mas o que nasce depois que você observou por tempo suficiente.

Cidades bonitas, que não me deram segurança, me deixaram em paz para sair. Sem drama, sem olhar pra trás. Porque beleza não é argumento suficiente para ficar.


Alexandre Barreto

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