O Peso do que Vai
Recebendo ou fazendo uma ligação, você se sentia importante. Tinha aquela satisfação de ser ouvido pela pessoa do outro lado que havia reservado aquele momento para você. Eram segundos ou minutos dedicados com exclusividade. Não havia como colocar o orelhão em viva voz e correr na esteira fazendo o aeróbio do dia, conferir as últimas notícias no jornal impresso, pedir a comida japonesa pro jantar enquanto falava com o outro. A dedicação era exclusiva.
Para conseguir meu emprego, precisei fazer um curso de datilografia. O curso consistia basicamente em decorar a localização física de todas as letras do alfabeto e números. Se usasse somente os indicadores para tal tarefa, diríamos que você era um "catador de milhos"; um tipo de ser menos evoluído. Chique era digitar sem olhar para o teclado. Hoje, ninguém precisa mais disso e ninguém mais sabe onde fica o ponto e vírgula.
Devidamente empregado, o dia de pagamento tinha cheiro e peso. Cheiro de moeda: aquele papel antigo com a foto de alguém e o número impresso que importava, e o peso do envelope que você abria na fila, contava na frente do caixa e guardava dentro da camisa no caminho de volta. Você sabia com exata precisão física quanto tinha. Hoje o salário é abstrato; alguns pixels numa tela. Você gasta sem hesitar porque não sente o peso do que vai.
As fichas do Seu Antônio não estão mais à venda. E junto com elas foi embora algo que ninguém colocou no obituário: A capacidade de ler o outro. A verdade raramente está nas palavras digitadas - está na pausa antes de responder, no desvio do olhar, na respiração que muda, no engolir seco... O texto não tem pausa, o emoji não tem a voz do outro. Você só conhece a versão que alguém escolheu digitar e chama isso de intimidade.
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