Quem Ainda é Presença

Há uma diferença que a maioria das pessoas raramente percebe: ouvir é passivo; escutar exige escolha.

Ouvir não requer presença. O som entra, o cérebro registra passivamente, a vida continua. Você ouvia a motocicleta barulhenta, o rádio do vizinho, a pessoa que sempre descreve a perfeição de seus atos. Escutar é diferente e exige que você pause o que está pensando para abrir espaço para o que o outro está sendo naquele momento, não só o que está dizendo. O que está sendo. Quem escuta mantém uma posição ativa, considera, pergunta, absorve, discorda, apoia quando é o caso. É uma escolha proposital, não um reflexo.

Existe um ditado que diz que as pessoas precisam ser vistas para serem lembradas. Durante muito tempo interpretei isso como uma observação sobre estratégia corporativa. Apareça, ocupe espaço, não suma do radar. Mas o ditado esconde algo mais sombrio: se as pessoas só lembram de quem veem, estão lembrando de imagens. E imagem não é presença. É sinal.

As redes sociais são a prova definitiva disso. Construíram uma arquitetura inteira em cima da premissa que postagem é visibilidade, visibilidade é memória, memória é pertencimento. O mecanismo funciona com precisão. E é exatamente aí que está o problema. Porque nesse sistema, o que as pessoas lembram de você não é quem você é. É o que você escolheu mostrar de você naquele momento.

A maioria das pessoas ouve, poucas escutam.

Quando você para de publicar, de curtir, de aparecer no feed, descobre algo que nenhuma lista de seguidores mostra. Descobre que boa parte das suas relações digitais era uma troca silenciosa: você dava atenção, eles te mantinham no radar. Você parou de dar, eles pararam de lembrar. Não porque você mudou, mas porque o seu espaço foi ocupado por outro post.

Quem sente falta da presença, e não dos seus cliques, é outra categoria de pessoa. Em geral, ligam sem motivo aparente. Mandam mensagem sem esperar resposta imediata. Perguntam como você está sem precisar ter lido uma publicação sua primeiro. Não precisaram de um post para lembrar que você existe. Lembraram porque te escutaram em algum momento de verdade, com atenção inteira e o que guardaram não foi conteúdo. Foi você, o seu nome, os seus momentos.

Epicteto observou que temos dois ouvidos e uma boca. A proporção foi ignorada em escala industrial. As redes inverteram a equação: todo mundo fala, poucos escutam, e o silêncio de quem para de falar é interpretado como ausência, não como presença discreta. Mas é no silêncio que a distinção aparece. 

Quem ainda é presença quando você para de produzir barulho não estava te seguindo, estava do seu lado e te conhece pelo seu nome, sobrenome e perfil da alma.


Alexandre Barreto

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