Visto - e Não Respondido

Você sabe a hora exata da última mensagem que enviou. Releu o texto incontáveis vezes procurando o defeito dentro dele, a palavra errada, o tom, a vírgula que afastou. Fez a autópsia da própria mensagem como se ali estivesse a causa da morte.

Está examinando o corpo errado.

Ghosting, do inglês, virar fantasma, seria encerrar uma relação, qualquer relação, pela ausência ou silêncio. Cortar todo contato de um só golpe, sem explicação, e ignorar cada tentativa do outro de reabrir a porta. Nasceu no vocabulário dos aplicativos de encontro e se espalhou para todas as formas de relação. Some-se de um amigo, de um parente, de um candidato depois da entrevista, de quem se dividiu a mesa por anos. O termo é novo, o comportamento não. O que a palavra fez foi apenas dar dignidade de fenômeno a algo que sempre teve um nome mais curto: indiferença.

Quem foi deixado no silêncio conhece a dor de nunca saber o porquê. A dor é sincera e falsa ao mesmo tempo. Falsa não porque você minta, mas porque você já sabe. E o silêncio não é a ausência de uma resposta, mas a resposta inteira, entregue no mesmo instante em que nada chegou. Você recebeu a resposta mas se recusa a ler porque o que ela diz é pior do que qualquer desculpa que você consiga inventar no lugar.

Você não queria aquela resposta embalada carinhosamente em silêncio. Queria que o motivo tivesse sido uma emergência, um telefone roubado, um mal-entendido que se desfaça com uma ligação. Qualquer coisa, menos o que a ausência já disse com clareza: você não vale a frase que custaria uma explicação. Chamar isso de mistério não é confusão, mas esperança ministrada em pequenas doses de ingenuidade e dependência. É recusar aceitar o óbvio.

A conduta de quem sumiu não está sob seu controle, e nunca esteve. O que está sob seu controle é o que você faz depois, e é aqui que se perde. Porque você não parou de perguntar sobre aquela pessoa. Você começou a negociar com ela. Ela saiu da sala e você continuou falando, sustentando sozinho uma relação que o outra pessoa já encerrou. O silêncio não te prende, você é quem se recusa a soltar o que pensava ser uma corda mas era, na verdade, um arame farpado. Quem prolonga a coisa não é quem desapareceu, mas quem relê a última mensagem à procura de uma brecha por onde espera que ela volte.

Alguém vai discordar, e com razão: nem todo silêncio é veredito. Há quem ia responder e não conseguiu, quem sumiu por circunstância e não por escolha, o atraso que não era partida. É verdade, mas você conhece a diferença, o coração conhece. Ninguém confunde um dia de demora com três semanas de vazio. Você não está em dúvida sobre qual dos dois recebeu, mas está fingindo dúvida para adiar o que já ficou claro. E ainda que o silêncio não signifique você não tem valor, restam outras leituras que não alteram coisa alguma do resultado final.

A pergunta que sobra então não é por que a pessoa te ignorou. Essa já foi respondida. A pergunta é por que você continua diante de uma porta que já ouviu fechar com força, ensaiando o que diria se ela abrisse novamente. 

O silêncio nunca foi o problema. O problema é quanto tempo você aceita continuar falando com quem já respondeu.

Alexandre Barreto

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