Domingo

Na segunda sexta-feira de Janeiro, as esteiras das academias voltam a ficar livres. O fenômeno é tão previsível que ganhou o nome de Quitter's Day, o dia dos desistentes, identificado pela análise de milhões de registros de atividade física em academias do mundo inteiro. Doze dias. É quanto dura, em média, a promessa feita de taça na mão, com fogos no céu e a certeza de que desta vez seria diferente.

Um estudo demonstrou que um hábito leva, em média, sessenta e seis dias de repetição para deixar de exigir esforço. Sessenta e seis dias de repetição, não um dia de declaração, cor de roupa, pulo de ondas do mar.

Mas suspeito que o erro não é ingenuidade, mas conveniência.

Prometer em Dezembro é uma forma elegante de não mudar em Dezembro e Janeiro tá todo mundo muito ocupado. O réveillon funciona como um sonho. Só que enquanto adiamos as mudanças, a vida passa. A promessa não é um instrumento de mudança, mas na maioria das vezes, um instrumento de adiamento com aparência de virtude.

O calendário anual é invenção administrativa: serve para impostos, contratos, aniversários de empresa. A semana é mais cirúrgica que tudo isso. As Escrituras não organizam a renovação por ano, organizam por ritmo curto. As misericórdias que se renovam são as de cada manhã, não as de cada réveillon. E o descanso que estrutura o tempo vem a cada sete dias.

E uma promessa que cabe em sete dias tem uma propriedade que é pequena por definição. Ninguém promete virar outra pessoa até domingo, mas pode se comprometer em deixar o carro na garagem e usar a bicicleta, jantar sem o telefone na mesa, dormir uma hora mais cedo, sentar e conversar. Coisas, aparentemente, sem grandeza nenhuma, mas que tem exatamente o tamanho das coisas que se cumprem. Em sete dias, a prestação de contas encontra você com a memória fresca, mas em trezentos e sessenta e cinco, encontra alguém que já nem lembra direito o que prometeu.

O réveillon é generoso com quem escolhe adiar porque cobra uma vez e perdoa as outras trezentas e sessenta e quatro. O domingo, primeiro dia de uma nova semana, cobra no tempo oportuno suas pequenas mudanças antes de alcançar seus grandes sonhos.

Alexandre Barreto

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