As Iscas

Um homem chora num ponto de ônibus, câmera perto, a chuva molhando o rosto, e diz a frase que qualquer trabalhador brasileiro reconhece de cor: trabalha, trabalha, e não sai do lugar. Em poucos dias tem casa, patrocínio, milhão de seguidores. Antes dele, outro rapaz gravou algumas luzes perto da propriedade isolada onde mora sozinho, e transformou o medo em pedido de ajuda, que veio, em doações, em fama, num contrato de exposição que a dor sozinha nunca teria comprado. Mais recentemente, uma educadora que foi casada por três vezes e afirmava que a mulher sábia precisava ser submissa ao homem, terminou seu último casamento alegando agora que a mulher sábia é aquela que nem marido tem.

Enquanto os três disputam espaço no seu feed, um quarto personagem trabalha mais discreto e mais eficiente que os outros dois juntos: o que usa audiência conquistada para empurrar casa de aposta a quem já não tem de onde tirar.

Quatro cenas. Um só mecanismo.

A internet não distingue choro verdadeiro de choro encenado, nem susto genuíno de oportunismo bem filmado. Ela mede uma única coisa: quanto tempo você fica olhando. É por isso que a dor real do primeiro rapaz, no instante em que alguém decide monetizá-la, compete em pé de igualdade com a farsa mais barata, porque o algoritmo trata as duas exatamente da mesma forma. Não interessa se a lágrima era genuína. Interessa que ela prendeu o olhar por tempo suficiente para caber um anúncio no meio.

O caso da luz estranha e da conselheira matrimonial casada três vezes, são mais fáceis de descartar, porque o prejuízo financeiro é pequeno e o ridículo protege quem caiu nele. O quarto caso é o que exige atenção séria, porque ali não há acaso: existe intenção. Usar influência construída para empurrar apostas para quem ganha um salário miserável é o mesmo mecanismo do primeiro rapaz, mas invertido, porque em vez de vender a própria necessidade, vende a necessidade alheia e lucra duas vezes: uma com quem aposta, outra com quem promove. A carta de Paulo a Timóteo é direta: não o dinheiro, mas o amor a ele é que envenena. O texto bíblico não condena o lucro, condena o lucro que se alimenta da fome do outro.

O erro não está em existirem os quatro personagens. Sempre existiram, só que antes era praça, cartomante, promessa de milagre. Hoje é feed. O que está sob seu controle nunca foi impedir que a engrenagem funcione, mas decidir se você lhe empresta seu tempo de atenção, sua indignação, seu clique de curiosidade, porque para o mecanismo, curtir com pena ou curtir com deboche alimenta exatamente o mesmo motor. Marco Aurélio não recomendava fechar os olhos para o mundo, mas não se maravilhar com o que os homens fazem para conseguirem atenção, validação e aplausos, porque isso já era conhecido há dois mil anos.

A pergunta não é se o choro era verdadeiro, se a luz era um alienígena, se a conselheira estava certa e todos os outros errados, ou se alguém realmente ganhou na aposta que viu anunciada. A pergunta é o que você fez com a atenção que colocou ali. Isso, e só isso, foi decisão sua.

Alexandre Barreto

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