Farmando Aura


Vi a palavra pela primeira vez num vídeo qualquer destas inutilidades que os algoritmos tentam nos enfiar goela abaixo. Um rapaz atravessava a rua com fones de ouvido, sem olhar para os lados, e a legenda dizia que ele estava farmando aura pelo simples fato de ignorar a prudência na travessia. Milhares aplaudiram, e na semana seguinte, a prática tinha virado outra seita contemporânea. 

Na mesma esteira, há quem acredite que constrói riqueza apostando. Abre um aplicativo, arrisca o salário, e chama de investimento aquilo que é o contrário. Provérbios já tinha separado as duas coisas há três mil anos: a riqueza vinda da pressa diminui; a obtida com trabalho, suor e dedicação, cresce. A casa de apostas não vende dinheiro, vende a fantasia de pular a parte do esforço.

E mais, há ainda quem receba do Estado uma ponte para atravessar um vão, e decida morar nela. Auxílios que serviriam para cobrir a distância entre uma queda e um recomeço, vira outra coisa quando o sujeito arma a barraca no meio dela e passa a chamar de casa. Quem acampa na ponte nunca chega ao outro lado e convence a si mesmo de que o outro lado nunca existiu.

Aura, aposta, auxílio eterno. Três máscaras do mesmo rosto. Todas prometem a colheita sem a semeadura. Todas descolam do efeito da causa e apostam que ninguém vai reparar na conta.

Mas a conta não some, matemática é uma ciência exata. Paulo escreveu que de Deus não se zomba: o que o homem plantar, isso ele colhe. Não é ameaça, é uma consequência lógica. Você não engana a terra plantando pedra e esperando trigo, e não engana a própria vida acumulando gestos vazios, fichas de aposta e meses parados, esperando que no fim aquilo tenha gerado um futuro bom.

Tudo tem um preço, e hoje em dia os homens querem os frutos da disciplina sem pagar por ela, querem a colheita e recusam a enxada. A geração que farma aura não inventou esse desejo, só encontrou telas que o alimentam mais rápido, e comerciantes dispostos a vendê-lo a prazo.

O tempo cobra um esforço que ninguém filma e ninguém financia. Planta-se hoje o que só se colhe daqui a anos, sem plateia, sem prêmio, sem aura. É exatamente por isso que dura.

E ninguém sensato pula a parte do meio. Ninguém sensato.

Alexandre Barreto

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