Órbita

Passava um pouco das sete e meia da tarde e a luz mudou de qualidade antes de mudar de quantidade. Não escureceu, ganhou tons de cinza em meio a um azul-perfeito. A ausência de calor era normal porque sol já estava a meia altura sobre o mar, quase deitado, e o disco tinha uma mordida discreta que crescia devagar. Uma brisa aumentava sua velocidade, a temperatura caiu um pouco mais e as gaivotas se calaram por alguns instantes. Parecia que o tempo se movia em câmera lenta, quase uma pausa.

Durou pouco e foi previsto há décadas com a incrível precisão de segundos.

Desde então esse pensamento tem alugado minha mente, não o eclipse, mas a previsão dele. Alguém que morreu anos atrás escreveu num papel a hora exata em que a lua ia passar na frente do sol hoje e acertou. Não deu um chute, não torceu, não pediu. Calculou cuidadosamente. O universo, que é grande de um jeito que a nossa cabeça não processa, apenas aceitou e se comportou exatamente como o papel dizia que ele se comportaria.

Um sistema desse tamanho não deveria caber numa conta escrita numa folha de papel.

Nos acostumamos a chamar isso de ciência e tocar a vida, sem reparar no que tudo isso implica. A previsão correta só existe onde há uma regra e deve ser por isso que não se calcula o caos, mas a ordem. E se tudo lá em cima obedece a uma matemática que estava pronta antes de qualquer um de nós abrir os olhos, é no mínimo estranho que a gente insista em explicar a própria existência como sobra, coincidência, acaso, poeira que se organizou.

Quem aceita a conta do céu e recusa a existência do Autor está fazendo uma escolha, não uma dedução.

O eclipse é previsível por um motivo que ninguém diz. Nem o sol muito menos a lua escolhem. Não há vontade em jogo. Um corpo celeste não recua, não se ofende, não muda de ideia às três da manhã. A precisão daquela tabela depende justamente da ausência de liberdade. É ordem sem risco.

Relacionamento é o oposto exato disso. É o único sistema em que as variáveis respondem. E talvez seja por isso que tanta gente vive tentando aplicar astronomia à vida afetiva. "Se fosse pra ser, seria", "O que é seu ninguém tira", "Cada um chega na hora certa." Frases que soam como fé e funcionam como efeméride. Transformam pessoas em corpos com trajetória fixa, chegada garantida, nenhuma responsabilidade atribuída. É o cálculo usado como álibi.

Provérbios diz que o coração do homem traça o seu caminho, mas é o Senhor quem lhe dirige os passos. Repare que os passos continuam sendo dados. A soberania não dispensa o movimento mas o inclui. Deus ordena o fim e ordena os meios, e os meios costumam ter forma de telefonema não feito, de conversa adiada, de porta que ninguém bateu porque era mais seguro deixar quieto.

E há um detalhe na palavra que dá título a isto. Órbita é a geometria da proximidade permanente sem contato nenhum. Dois corpos podem girar um em volta do outro por milhões de anos, presos pela mesma força, e jamais se tocarem. O sistema é estável, elegante e calculável. E é exatamente o que duas pessoas constroem quando decidem se manter por perto sem nunca se aproximarem de verdade.

Eclipse é o instante raro em que os dois finalmente se alinham. Dura segundos e depois cada um segue seu curso.

Deveríamos então nos perguntarmos sobre o que tem orbitado friamente em nossas vidas sem que haja um alinhamento real com nossos sonhos e buscas.

Alexandre Barreto

Gostou deste texto?

O blog Reflexões e Atos reúne histórias, pensamentos e reflexões sobre o ser humano, seus amores, suas memórias e seus caminhos. Explore outros textos que também podem tocar o seu coração:

👉 Força

👉 Um Tijolo de Cada Vez

Ou navegue pelo blog e descubra mais textos que falam diretamente à alma.
Cada visita é um novo encontro consigo mesmo.

Comentários

Postagens mais visitadas