Agenda



Hoje achei uma agenda velha escrita numa folha de caderno amarelada, numa pasta que ainda não tinha desfeito. Números escritos com canetas diferentes, caligrafia distinta, alguns com dígitos a menos, do tempo em que falar com alguém exigia carregar o papel no bolso. Não sei por que guardei aquilo por tantos anos. Provavelmente pela mesma razão que a gente guarda carregador de celular que já não existe.

Passei um tempo relendo nomes e números. Não foi saudade, foi outra coisa, mais incômoda, que ainda estou tentando descrever.

Havia nomes que eu não consegui associar a rosto nenhum. Outros, rostos que voltaram inteiros, com voz, cheiro, gosto, barulho da televisão ligada na sala enquanto a conversa acontecia na cozinha. E havia gente com quem jurei, naquele tom solene que só existe antes dos vinte anos, que a distância não faria diferença nenhuma.

Fez diferença.

Depois vêm os nomes que a rotina me forçou a escrever. Pessoas com quem dividi mais horas por dia do que com qualquer parente. Gente que percebia meu humor pelo modo como eu entrava numa sala e ensaiava o próprio tom antes mesmo de abrir a boca. A convivência acabou e em poucos meses restou o silêncio protocolar da mensagem de aniversário, aquela que se envia porque o aplicativo lembrou e não porque a pessoa fez falta. Escrevi algumas dessas mensagens e recebi outras tantas. Da minha parte, nenhuma delas era mentira, mas nenhuma delas trazia a nudez da verdade.

E, por fim, os nomes que doeram.

De todas as ausências, poucas têm direito a algum tipo de luto reconhecido. Quando um relacionamento acaba existe um linguajar específico, uma compaixão graduada, e até uma expectativa social de sofrimento, e quem não sofre o suficiente é julgado com desconfiança. Ninguém pergunta a um homem da minha idade como ele está lidando com o desaparecimento do amigo de infância, a perda de um colega de trabalho, o sumiço de uma amizade de vinte anos não gera pergunta, não gera nem constatação. Some e pronto, como moeda de dez centavos que caiu do bolso furado e a gente nem percebeu.

Dizem por aí que o contrário do luto é o esquecimento; do amor é a indiferença. Soa bonito, confesso.

Mas a verdade é que esquecer atualmente é opcional. Sabemos o nome, a cidade, o que faz da vida, quantos filhos tiveram, se engordaram, emagreceram, se ficaram doentes. A tela do telefone vira o nosso noticiário particular, todos os dias, sem que a gente precise se mexer nem um centímetro. Engraçado perceber que companheiros de caminho tomam direções completamente distintas quando a ligação é desligada.

Epicteto ensinou a não dizer perdi, mas devolvi. A frase é cirúrgica para o que a morte leva e para o que o tempo cobra sem pedir licença, mas neste contexto ela não serve. Devolver pressupõe um credor, e nesse caso o credor era quem se dedicava. E quando este último fecha a conta, sem aviso, sem cerimônia, sem sequer decidir um dia específico, encerra pelo acúmulo de dias em que ficou estagnado numa vida medíocre.

Paulo, preso e perto do fim, escreveu que Demas o havia abandonado por amor ao presente século. Escreveu o nome da pessoa e não pediu compaixão, não construiu narrativa de vítima, e na mesma carta pediu que lhe trouxessem Marcos, a capa que tinha esquecido em Trôade e os livros, principalmente os pergaminhos. Quem foi embora foi citado, quem fazia falta foi chamado de volta, e o resto seguiu. Sempre achei desconcertante que ele tenha lembrado da capa. Um homem à beira da execução preocupado com um casaco esquecido e por isso a carta me impacta.

Peço licença para falar sobre saudade, falta, nostalgia. Ciclos encerrados geram também estes sentimentos. Mas sempre que olho pra dentro de mim, percebo que nunca mais serei com os outros o mesmo que fui com aquele nome da agenda. Há algo em mim que só existiu naquela ligação e meus comportamentos não se repetiram. Num mundo cheio de coachs, conselhos e dicas, se permitir ser você mesmo é uma ousadia.

É aqui que o paralelo se fecha, e ele não é confortável para ninguém.

O fim de um amor tem ruído, data, cena, tem alguém dizendo alguma coisa que a outra pessoa vai repetir ou se perguntar mentalmente por anos. Isso torna a ruptura visível, e o que é visível pode ser enfrentado, contado para terceiros, transformado em história com começo, meio e fim.

Mas a amizade não rompe, ela vence a validade, apodrece devagar, como a madeira do telhado sob goteira. Ninguém se importa enquanto a mancha no forro é pequena, e todo mundo diz que vai chamar alguém para olhar aquilo antes da época das chuvas. Até que um dia o teto cede e já não existe conserto. Existe recolhimento de entulho e orçamento de reconstrução, ou mudança para uma casa nova.

E finalmente, existe uma lenda urbana em circulação, dessas que soam generosas e que a gente ouve de pessoas, talvez, bem-intencionadas, segundo as quais a cura do coração partido é encontrar outra pessoa. Vá lá e ame alguém, você é um verbo, não um substantivo. Frases assim tratam gente como função: Se a vaga abriu, preencha. Quem pensa desse jeito não perdeu uma pessoa, perdeu um serviço que o outro prestava, e vai perder o próximo pelo mesmo motivo, sem a mesma surpresa.

Ninguém é substituível quando aprendemos que somos diferentes com cada pessoa, e cada pessoa desperta em nós uma versão completamente distinta e única.

No fim das contas, a folha amarelada com contatos cinzas da agenda foi pro lixo. Não mandei um Oi, você sumiu! para ninguém naquela noite. Meu telefone continuava na mesa da sala, intocável. O que torna este texto uma prova de acusação contra quem o escreve e assina.

A pergunta que me fiz não foi de quem eu sentia falta, mas como seria minha próxima versão no novo capítulo da minha vida. 

Alexandre Barreto

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