Foz
Acordei às seis novamente sem que nada me despertasse. A janela aberta permitia a entrada silenciosa da maresia que sobe o rio Lima na enchente, e o único ruído vinha de uma brisa suave. Orei, fiz o café, fui até a sacada e fiquei ali um tempo segurando a caneca numa das mãos enquanto a outra tentava inutilmente parar o tempo naquele exato instante de céu azul irrepreensível.
Levei alguns meses para que esse silêncio, essa ausência de barulhos e ruídos, me desse um sutil toque no ombro e sussurrasse: é real.
Durante boa parte da minha vida, silêncio foi preparação, era o intervalo antes de algo acontecer, o espaço em que se checava o que ainda não tinha dado errado. Um homem que escolheu ser Policial não descansa: ele aguarda. E aguardar tem cara de calma para quem olha de fora, mas por dentro é outra coisa. É o corpo em prontidão, esperando a chegada do barulho posterior a toda aquela aparente paz.
Eu pedi isto. Pedi durante anos, em oração e em pensamento, sem grande fé de que fosse chegar. E quando chegou, quase não reconheci, porque a gente imagina a paz como recompensa, com cenário, com trilha sonora, com alguém para testemunhar, dar like, e ela chega como ausência. Ausência de urgência, perigo, ausência de aviso, ausência de plateia.
Dizem por aí que quando você pede paz a vida te manda o caos, e quando pede paciência ela te manda conflitos, como se houvesse um professor invisível montando provas antes de entregar a nota. É bonito, e é falso na parte que importa. A espera não é castigo pedagógico, mas apenas o que existe entre o pedido e a chegada. O que quebra a maioria de nós não é a dureza do caminho, mas o pedido que chega embrulhado de um jeito que não combina com a imagem que tínhamos na cabeça, e a gente devolve sem abrir.
O Salmo diz que Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Faz. O verbo é ativo. Há um tipo de descanso que não se conquista, se recebe. E às vezes se recebe à força, quando já não sobrou lugar para correr. Levei tempo demais para entender que isso não é derrota, mas provisão.
O que ninguém avisa é que a paz te devolve para você.
Enquanto existe barulho, você é a sua função. É o que resolve, o que responde, o que carrega. Tirado o barulho, sobra o homem, e o homem não vem com um currículo, um distintivo, não vem com ninguém dependendo dele naquele minuto. Sentar diante de si mesmo sem urgência e sem tarefa foi a coisa mais desconfortável que já me pediram, mas também foi a primeira conversa honesta que tive depois de muito tempo.
Descobri que gosto de mim em doses razoáveis. Descobri que boa parte do que eu chamava de disciplina era pressa, e que boa parte do que eu chamava de prudência era só cansaço com nome nobre. Descobri que consigo passar uma tarde inteira sem provar nada para ninguém, e que o mundo não acaba por isso.
Marco Aurélio escrevia de madrugada para se convencer a levantar e fazer o trabalho de homem. Ele não escrevia para fugir do dia, escrevia para entrar nele. Isso me corrige toda vez que confundo sossego com fim de linha.
Porque a paz não é um prêmio, mas um terreno. Um terreno serve para construir ou semear.
A foz não é o fim do rio, mas o ponto onde ele para de correr e passa a ser outra coisa. Mais largo, mais lento, mais profundo, mas ainda assim, indo para algum lugar.
Quando o barulho da sua vida finalmente parar, quem vai estar sentado do outro lado da mesa?
E você vai ter assunto com ele?
Gostou deste texto?
O blog Reflexões e Atos reúne histórias, pensamentos e reflexões sobre o ser humano, seus amores, suas memórias e seus caminhos. Explore outros textos que também podem tocar o seu coração:
👉 Força

Comentários
Postar um comentário