O Telão
Estava lembrando hoje das sessenta mil pessoas no Gillette Stadium, em Boston. O show do Coldplay estava bombando quando a kiss cam, a câmera que varre a plateia em busca de casais para exibir no telão, encontrou um casal, aninhado num cuidadoso abraço, nas arquibancadas. Ao perceberem que estavam na tela, ela virou de costas e escondeu o rosto, ele se abaixou até desaparecer do enquadramento.
O vocalista Chris Martin comentou, sem saber com quem estava lidando: Ou estão tendo um caso, ou são muito tímidos.
O mundo descobriu em horas que não era timidez.
O vídeo chegou a cento e vinte milhões de visualizações. As redes sociais foram tomadas por memes, análises, julgamentos e curiosidades sobre os detalhes da vida particular dos dois. A esposa de um deles removeu o sobrenome do marido das redes sociais antes do fim do dia. O CEO perdeu o cargo em menos de uma semana. Mas ninguém parou para observar o que o momento realmente registrou.
Não foi a traição que o telão expôs. A traição já existia antes da câmera girar. O que o telão capturou e o que ninguém consegue parar de assistir foi o gesto. O reflexo involuntário de quem, por uma fração de segundo, perdeu o controle sobre a narrativa que havia construído com tanto cuidado.
Quem age em segredo não elimina o ato, apenas administra temporariamente quem o vê. É uma encenação de vida, não a vida real assumida. O segredo não transforma a natureza da coisa, apenas atrasa o momento em que ela se torna visível para os outros. Para si mesmo, ela já era visível desde o primeiro dia. Ninguém tropeça e cai despido numa cama para trair. A traição é calculada friamente, nos mínimos detalhes, primeiro na mente e depois no corpo.
Sêneca escreveu nas suas cartas a Lucílio que devemos viver como se o mundo todo nos observasse, não por medo da opinião alheia, mas porque a coerência não pode depender de testemunhas. O problema do casal no telão não foi ter sido visto, mas foi ter construído uma vida que precisava não ser vista para funcionar.
Relacionamentos que dependem das sombras, não são relacionamentos. São negociações sentimentais e não muito raramente, financeiras. Têm rotas, horários, protocolos de contenção de dano, compensações. Funcionam enquanto o telão está apontado para o outro lado.
A pergunta que ninguém faz, porque a resposta é desconfortável, não é como alguém chega a esse ponto? A pergunta certa é: quantas versões desse telão existem na vizinhança, no trabalho, na saída com os amigos, na confraternização, na mesa de jantar do domingo?
O telão do Coldplay foi público e definitivo mas a maioria dos telões é silenciosa e os filhos que percebem antes de entender, os amigos que ficam quietos, os parentes que não se metem. O cônjuge que para de perguntar porque já sabe qual será a resposta.
Provérbios é direto: "Quem encobre as suas transgressões jamais prosperará, mas quem as confessa e abandona alcançará misericórdia." Não é uma ameaça, é descrição de uma consequência. O encoberto não desaparece, fermenta. E o que fermenta em silêncio dentro de um relacionamento não produz nada que valha guardar.
Sessenta mil pessoas viram o gesto, cento e vinte milhões assistiram ao vídeo, mas ninguém viu o momento em que a decisão foi tomada, aquele instante anterior, invisível, em que alguém escolheu construir uma vida que precisava de sombras para existir.
Esse momento nunca vai para o telão, mas aconteceu. E todo mundo ao redor já sabe, menos quem deveria ter impedido.
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