O Perfil

Sinto falta do tempo em que a gente conhecia pessoas na rua, em festas juninas. Um primeiro olhar que se encontrava e traria uma descarga enorme de sensações. Aquela aproximação cautelosa e bem estudada e a conversa olho no olho prestando atenção nas palavras, na respiração, no movimento das mãos. A magia seguia assim até o próximo encontro que poderia durar uma eternidade de 7 dias. Nesse tempo, não dava pra consultar o Instagram, TikTok ou Facebook pra saber o que a pessoa curtia, seguia ou admirava. Era um tempo incontável até a próxima oportunidade de saber mais da pessoa.

Conhecer alguém exigia presença. Não a presença digital, sujeita a likes, mas a presença física, com tudo o que isso implica: o tom de voz que hesita antes de completar uma frase, o olhar que desvia quando a resposta é ensaiada, a tensão nos ombros de quem carrega algo que não diz. A presença não permite filtros, a voz tem arquivos que as palavras não entregam. Quem aprende a observar pessoas sabe que a informação mais honesta raramente vem do que elas postam nas redes sociais.

Hoje, antes de sentar à mesa com alguém, já chegamos com um dossiê montado. Fomos ao perfil, vimos as fotos escolhidas a dedo, lemos as opiniões postadas com cuidado de quem sabe que está sendo avaliado. Acompanhamos as causas que apoia, os lugares que frequenta, os livros que diz ter lido. Construímos uma impressão. Chegamos no encontro pessoal com uma imagem já formada daquilo que o outro escolheu, cuidadosamente, ser. E talvez aí o problema comece: tendemos a confirmar o que já decidimos acreditar.

O erro não está em usar a informação disponível, mas em confundir um perfil com a pessoa.

Marco Aurélio escrevia que devemos observar os homens como são, não como gostaríamos que fossem. O perfil é exatamente o oposto: é a versão que alguém gostaria que você visse, a seleção deliberada do que convém mostrar. Não é mentira, necessariamente, é marketing.

O que as redes sociais fizeram não foi inventar um personagem, porque eles sempre existiram. Elas profissionalizaram o processo. Antes, a personalidade que alguém construía precisava ser sustentada ao vivo, em tempo real, com os riscos que isso envolve. Um gesto fora do lugar, um silêncio no momento errado, uma reação que não combinava com o personagem e a fissura aparecia. Hoje, o personagem existe num ambiente controlado, assíncrono, editável. Pode ser revisto antes de ser publicado. Pode ser deletado e rapidamente substituído por uma versão atualizada.

Isso não torna as pessoas piores, mas torna o conhecimento delas mais lento e difícil.

Provérbios diz que o coração humano é profundo como água funda, e que o homem de discernimento vai fundo para buscá-lo. A questão é que água funda exige tempo, paciência e disposição para mergulhar. Os perfis sociais são o espelho d´água e o que eles refletem, não o que guardam em si. Quem só molha o pé na fria água da praia, não conhece o mar.

Conhecer alguém ainda é possível, mas sempre será um processo longo. Só que agora existe uma camada a mais para atravessar: a versão de si mesmo que a pessoa passou meses ou anos construindo para consumo externo. Essa camada não é falsa no sentido simples e pode conter traços reais, mas é incompleta por definição porque foi escolhida para ser incompleta. Ninguém posta o que o envergonha, a derrota, ou exibe sua fragilidade. A seleção já é, por si só, uma forma de distorção.

A pergunta que fica não é sobre tecnologia, mas sobre paciência.

Quem não tem essa paciência, não conhece a pessoa. Conhece o que ela autorizou a ser conhecido.


Alexandre Barreto

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