Chão

Pedro parecia ter entre oito ou nove anos e subiu num palco de stand up porque o comediante costumava chamar crianças para mostrarem algum talento, habilidade, brincadeira que os adultos acompanham com condescendência e que as crianças, invariavelmente, levam a sério. Quando se apresentou, revelou que seu talento era dar um salto mortal. O comediante, por prudência ou por hábito de quem já viu confusão em casa de espetáculo, perguntou aos pais, sentados na plateia, se aquilo estava autorizado, e os pais autorizaram. O menino nem tomou distância, apenas tentou um giro no ar de qualquer maneira e caiu quase de costas, com a cabeça batendo no chão de madeira do palco, enquanto o plateia inteira silenciou e prendeu a respiração, naquele vácuo que antecede o alívio ou a tragédia.

No show, veio o alívio. Foi só o susto. Mas nas redes, veio o que sempre vem, ou seja, a divisão das culpas e julgamentos, feita com aquela velocidade que só existe quando ninguém tem nada a perder. Os pais foram condenados por terem consentido, o comediante foi condenado por ter perguntado, até o menino Pedro foi julgado por desconsiderar que salto mortal na piscina era diferente, e o assunto se esgotou em poucos dias, porque indignação tem prazo de validade curto e precisa de reposição constante.

O que quase não se contou, provavelmente porque não rende revolta nenhuma, foi o que aconteceu quando as cortinas se encerraram. O menino voltou para casa e pediu aos pais que o ensinassem a dar o salto mortal do jeito certo. Não pediu para esquecer, tampouco para nunca mais pisar naquele palco, embora essa fosse a saída mais confortável, e a que qualquer adulto mediano teria escolhido. Passou a treinar duas vezes por semana numa cidade vizinha, durante nove meses, até que o corpo aprendesse o que a vontade sozinha não resolveria. Quando finalmente voltou ao mesmo palco e pediu para repetir a apresentação, o salto saiu perfeito.

Pedro Mortal caiu diante de umas trezentas pessoas e não dispunha de nenhuma versão dos fatos em que a queda não tivesse sido um completo desastre, de modo que só lhe restava voltar e refazer. Adultos, ao contrário, que fracassam em ambientes reservados, sem plateia e sem registro, podem narrar suas derrotas com um vocabulário que já vem pronto e que soa quase digno: não era o momento certo, minhas prioridades mudaram, eu amadureci e entendi que aquilo não era para mim. Ninguém confere ou pede uma prova. A versão dos fatos de um adulto depende das circunstâncias.

Vale reparar no que a história efetivamente contém, porque a parte visível é a menos importante. O salto limpo durou uma fração de segundos e coube num corte, mas os nove meses não cabem em lugar nenhum, pois consistem em estrada, jantar atrasado, dinheiro gasto, em algum adulto cansado dirigindo de volta enquanto a criança dorme no banco de trás, e em dezenas de tentativas medíocres que ninguém filmou porque não havia nada ali para se ver. Toda a moral da história está justamente no trecho que não vira conteúdo.

Cada um sabe o que abandonou no meio do caminho. A pergunta que sobra, portanto, não é sobre o que você ainda sonha, porque sonhar não custa nada e ninguém cobra. A pergunta é quantas viagens você está disposto a fazer por uma coisa que talvez, mesmo depois de todo esforço e tempo dedicados, ainda saia torta.

Alexandre Barreto

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