Alavanca
Robert Kiyosaki, o homem que vendeu quarenta milhões de exemplares ensinando gente comum a enriquecer, conhecido principalmente pelo livro Pai Rico, Pai Pobre, traduzido em 51 idiomas, anunciou que carrega milhões de dólares em dívidas e que não perde o sono por causa disso. A explicação dele é simples e bem óbvia: a dívida está amarrada em imóveis que valorizam, a valorização garante o empréstimo seguinte. Se o esquema cair, quem quebra é o banco. Na mesma entrevista em que disse isso, acrescentou que ninguém deveria fazer o que ele faz.
Guardei a lógica por conta do mecanismo, que me pareceu familiar demais para ficar restrito à contabilidade.
O telefone ficou vibrando sobre a mesa da cozinha durante quase todo início da noite. Três conversas em andamento, nenhuma delas exigindo resposta imediata, todas pedindo alguma coisa. Terminei a louça, sequei as mãos, olhei para a tela acesa e não abri nada. Rolei a lista de contatos até o fim, umas quatrocentas entradas, números desconhecidos misturados com gente que conheço, e não encontrei um número para o qual ligar naquela hora sem precisar de assunto.
Nunca tive tantos contatos disponíveis.
Existe uma engenharia silenciosa no modo como as pessoas organizam seus relacionamentos hoje, e ela não é acidental. Ninguém consegue sustentar sozinho o peso do que carrega, então distribui. A conversa nova torna suportável o silêncio da antiga e o interesse de alguém compensa a indiferença de outro. Cada interação funciona como apoio para que um segundo vínculo se sustente, e a estrutura toda se mantém de pé por uma soma de atenções superficiais. Nenhuma delas projetada para aguentar a carga total.
Isso não é traição, não é promiscuidade, não é frieza, não é a geração que se perdeu. É um quebra-cabeças. É gente honesta procurando onde depositar um peso que não cabe inteiro em lugar nenhum, e descobrindo que se dividir em partes o peso deixa de doer em qualquer uma delas.
O problema aparece na física da coisa. Uma alavanca precisa de ponto de apoio fixo, e essa é a única exigência inegociável do mecanismo. A barra pode ser longa ou curta, o esforço pode ser grande ou pequeno, mas se a base se mover, nada sobe. A pessoa empurra, sente resistência, acredita que está trabalhando, e no fim da tarde a pedra continua exatamente onde estava. Foi o que aconteceu com a maioria das relações que observo: todo mundo apoiado em alguém que também está apoiado em alguém, uma corrente inteira de gente pedindo firmeza a quem não tem base própria.
Deveríamos separar o que depende de nós do que não depende, e viver com serenidade nessa fronteira. Quem vive se dividindo em vínculos perde a sua fronteira, seus limites. Torna-se dependente da disposição de outra pessoa, que muda com o sono, o emprego, o mês, com nada. É a servidão mais bem disfarçada que existe, porque se apresenta como abundância de opções. Quanto mais nomes na lista de seguidores, mais evidente parece a liberdade, e na verdade, menos ela existe.
Escrevo isso com a caneta de quem não se alavanca em ninguém, mas somente em Deus.
Passei anos chamando de independência aquilo que era, com mais precisão, a decisão de não deixar nenhum peso meu apoiado onde alguém pudesse retirá-lo. Autossuficiência é um dos poucos assuntos em que a minha fé me desmonta, porque a doutrina que sigo não trata a dependência como fraqueza, mas a ilusão de bastar-se como o erro original de onde saem os outros. Nunca resolvi essa tensão. Suspeito que ela não se resolva, apenas se administre, e desconfio de mim quando a administro bem demais.
O homem da notícia tem uma vantagem sobre nós. A conta dele está escrita em algum lugar, alguém pode auditar, existe um dia marcado em que o empréstimo vence. A nossa não tem vencimento, não tem cartório e não tem auditor.
Vou então te fazer a pergunta que me fiz algumas vezes no passado antes de despertar: Quem te sustentará no dia em que o apoio se mover, e quem está apoiado em você agora, neste momento, sem que você tivesse ideia disso?
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